Entrevista:

Realidade e ficção
Revista Cultura-e (Banco do Brasil)
novembro de 2001

Cristina Zaccaria 


Apontado como uma das revelações dos anos 1980, o escritor gaúcho João Gilberto Noll, 56 anos, conquistou a opinião da crítica logo no lançamento de seu primeiro livro. Por seu trabalho de estréia, o volume de contos “O Cego e a Dançarina” (1980), ele recebeu três prêmios: Revelação de Autor, da Associação de Críticos de Arte; Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; e Ficção do Ano (Instituto Nacional do Livro). 

Não demoraria muito e Noll seria consagrado um dos mais importantes autores brasileiros contemporâneos. Sua bibliografia inclui 11 obras, como “A fúria do corpo” (1981) e “Bandoleiros” (1985), só para citar dois de seus livros mais conhecidos; além de vários textos adaptados para o cinema e teatro, como “Nunca fomos tão felizes”, de Murilo Salles, baseado no conto “Alguma coisa a gente tem em mente”. 

Agora, outras três adaptações cinematográficas de suas obras estão sendo produzidas: “O quieto animal da esquina” (1991), de Marta Biavaschi; “Harmada” (1993), de Maurice Capovilla; e “Hotel Atlântico” (1989), da cineasta Suzana Amaral. No teatro, a companhia paulista Studio Stanislavski montou no ano passado a peça “Evangelho segundo Nossa Senhora de Copacabana”, baseada em “A fúria do corpo”. O livro também inspirou uma peça homônima dirigida por Maurício Abud em 1992. 

Nos dias 5, 6 e 7 de novembro, João Gilberto Noll é o convidado do Rodas de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil. Para esse encontro, que acontecerá respectivamente em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, o escritor selecionou trechos de seus dois livros mais recentes. Em entrevista concedida de sua casa em Porto Alegre, Noll fala sobre os novos trabalhos e o que eles representam neste momento de sua carreira. Acompanhe!

Como será a sua participação no Rodas de Leitura?

Vou ler trechos de Canoas e marolas (1999) e Berkeley em Bellagio (2002). Canoas e marolas é uma publicação da Coleção Plenos Pecados (Editora Objetiva), cujo pecado escolhido por mim foi o da preguiça. Berkeley em Bellagio (Editora Objetiva), que eu lanço amanhã (29 de outubro) aqui em Porto Alegre, é resultado de minhas experiências nas temporadas que passei na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), e na Fundação Rockfeller, em Bellagio (Itália). Os dois livros têm ritmos de prosa bastante distintos. O primeiro é pausado, lento e corresponde ao pecado do qual trata. O segundo, ao contrário, é sôfrego, veloz. Como não há voz que agüente ler em ritmo acelerado, pretendo fazer uma leitura gregoriana, sem grandes modulações, para se contrapor à sofreguidão do texto.

Qual o seu interesse pelo tema preguiça?

Estavam faltando três ou quatro temas para completar a série dos sete pecados capitais. Lembro-me que a editora me ofereceu avareza, soberba e preguiça. Se eu tivesse os sete à minha disposição, teria escolhido o da luxúria. O da avareza descartei de cara porque não é um pecado com o qual me identifico muito. Acho que não tem a ver comigo; não me considero uma pessoa avarenta. A soberba me interessa bem mais na medida em que admiro personalidades do universo cultural com esse perfil. Enfim, tenho admiração por alguns artistas e intelectuais como Orson Welles, Wagner e Nietzsche, que achavam que faziam algo que era maior que o mundo ao seu redor deles. Acabei escolhendo a preguiça porque ela é inerente à minha obra: meus personagens são muito contemplativos. Canoas e marolas fala da discrepância entre a velocidade cada vez mais acelerada do cotidiano social e o interior do indivíduo que prefere a contemplação à ação. O personagem é alguém inadequado ao ritmo veloz que se impõe fora dele.

E “Berkeley em Bellagio”, como nasceu?

Em 1996, fui para a Universidade da Califórnia como escritor residente, condição que me permitia escrever e fazer palestras. Depois de um tempo, fui convidado para dar cursos de literatura brasileira contemporânea. Sou formado em letras, mais não tenho doutorados. No entanto, os Estados Unidos são mais flexíveis nesse ponto. Como escritor, pude dar aulas sobre Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Sergio Santana, Caio Fernando de Abreu e poética na MPB, entre outros assuntos. O livro parte dessa experiência de dois anos. Originalmente, ele se chamava Berkeley. Em março deste ano, fui chamado para concluir meu livro em uma temporada de um mês junto à Fundação Rockfeller. O programa também contemplava profissionais de diversas outras áreas. Convivi com químicos, físicos, músicos, etc...Passei um mês em um palácio dessa aldeia medieval à beira do Lago de Como. A cidade me pegou desprevenido e, sem que eu esperasse, entrou livro adentro.

“Berkeley em Bellagio” é um livro autobiográfico?

Não exatamente: 40% dele se refere à realidade e o restante é feito de ficção. O protagonista é um escritor brasileiro que busca inspiração para seu novo livro durante um longo retiro em uma universidade estrangeira. A história começa em Berkeley, uma outra parte se dá em Bellagio e, depois, em Porto Alegre. No retorno ao país, ele está em um vôo repleto de árabes, hindus, africanos, que esperam se refugiar na capital gaúcha. A cidade os acolhe de braços abertos. O escritor, no entanto, só consegue se comunicar em inglês e sai em busca de um curso de português para estrangeiros. Ele perdeu a memória e está num mato sem cachorro, mas por diversas razões consegue recuperá-la. Uma delas está relacionada à adoção de uma menina. É nesse momento que o personagem se apazigua, aceita a rotina e tenta tomar partido da realidade cotidiana. 

Qual a proposta do livro?

O enredo é uma reflexão sobre o nosso tempo. Eu não estava interessado em fazer uma crônica a respeito dos costumes e da cultura de Berkeley ou Bellagio. Minha preocupação era falar sobre o brasileiro na condição de estrangeiro e, a partir disso, abordar a mundialização. Eu espero que esse seja o primeiro livro de uma trilogia sobre a globalização. 

Você declarou que o novo trabalho é um divisor de águas em sua obra. Em que sentido?

Eu era um escritor mais pessimista. Em geral, meus livros são duros e nesse há uma certa leveza, uma apelação amorosa, incluindo até um final feliz. Berkeley em Bellagio é um livro de reconciliação.

“Canoas e marolas” também traz dados autobiográficos, não?

Sim. Foi inspirado no espaço que escolhi para escrevê-lo, mas é um livro bastante ficcional. Antes dele, nenhum outro trabalho meu traz dados da realidade. Canoas e marolas foi escrito na Costa da Lagoa, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis (Santa Catarina), onde só é possível chegar de barco. Não há estradas até lá. A cidade do livro não é definida geograficamente. Então, fiquei ali escrevendo, meio isolado, somente na companhia de pescadores e os poucos habitantes do vilarejo. Alguns dos meus sentimentos pelo lugar acabaram passando para o livro. Um exemplo que faz contraponto com o que acabo de contar é “A Fúria do Corpo”, que fala sobre o amor dilacerante entre dois mendigos em Copacabana. Eu vivia no Rio de Janeiro nessa época, mas não tinha uma vida parecida com a dos personagens. 

Você se considera um escritor radicalmente híbrido entre a prosa e a poesia. Como é isso?

Meu trabalho está cada vez mais radical nesse aspecto. Por vezes, esqueço da narrativa e brinco com o movimento, com a palavra em estado musical. No meu processo criativo, a linguagem determina o tema. É ela que determina o poder semântico do livro. O significado vem da estruturação que dou à linguagem. E isso tem mais a ver com poesia do que com prosa. Porém, não sou um escritor formalista. A história está lá!