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Preguiça de uma realidade insuficiente
Rodrigo Apolloni
Guia Paraná
A preguiça - estado letárgico ocultado na agonia do corpo - desfila com muita falta de sentido pelo novo livro do escritor gaúcho João Gilberto Noll. Na lentidão da vida em uma pequena ilha, um dos símbolos utilizados por Noll para caracterizar um dos sete pecados capitais, um homem caminha em busca de sua suposta filha. Parece ser o mesmo homem presente nas obras anteriores do escritor. Parece, no início, que a busca será frenética, alucinada, tresloucada atrás de respostas para uma realidade lapidada na dor do movimento da vida.
Não. Canoas e Marolas (Ed. Objetiva, 105 págs., R$ 15) é a negação do realizado pelo escritor em livros anteriores. Há uma busca, mas ela é tranqüila. Há um homem, mas não carrega a agonia a cada passo. O objetivo é facilmente alcançado ou o próprio personagem se ilude com a possibilidade de o ter vislumbrado e se acomoda, contrariando as borrascosas páginas iniciadas por Noll em 1980, com o livro de contos O Cego e a Dançarina até chegar a Céu Aberto (1996), uma de suas as obras mais audaciosas. Mas o que busca esse homem em uma ilha, que passa a impressão de letargia e acomodação de movimentos? Está atrás de sua filha Marta. Ela representa uma dose de tristeza, porque se posiciona entre a hipótese de ser filha e mãe do desconhecido. Não conhece o seu pai e tampouco o de seu filho, que está prestes a nascer.
Mas até encontrar Marta, o homem se depara com um menino de feições indígenas e, aparentemente, mudo. Os dois travam uma batalha árdua de silêncios e dúvidas e assim descobrem que suas vidas estão ligadas - até a última linha. Talvez já venham relacionadas de outros livros. João Gilberto Noll - que queria ser cantor e tem 53 anos - é daqueles escritores (bons) que amarram os personagens e eles passeiam com firmeza por todos os seus livros. Será que o menino e o homem de Canoas e Marolas não são os mesmos irmãos de A Céu Aberto, que vão a uma guerra imaginária buscar dinheiro com o pai para comprar remédios? A composição é explosiva: no trajeto até o front o irmão, que está doente, vira mulher, engravida e perde o filho.
Já nesse novo livro, a busca é lenta, sem percalços, sem sofrimento. Muitos podem afirmar que aí reside a força do livro, que busca expressar a preguiça. Mas para encontrar essa - nesse caso - pseudo-virtude é necessário conhecer a obra anterior de Noll e mesmo assim isso não se confirma, porque houve um arrefecimento na força de suas palavras, em benefício de uma encomenda feita pela Editora Objetiva, para a série Plenos Pecados. Noll - positivamente influenciado por Clarice Lispector em livros anteriores - não consegue agora limitar um território seguro para percorrer. Queda-se entre a falta de perspectiva da história e a busca amorfa, aqui, de alternativas individuais de uma realidade "insuficiente", como ele mesmo costuma dizer. Falta aos personagens a contestação da realidade em que vivem. Na ilha - com um rio caudaloso, que passa a impressão de uma lerdeza devastadora -, o homem procura Marta, que está grávida, talvez, do menino mudo. Esse emaranhado de casos é característico na obra de Noll, mas, nesse caso, com a força de uma brisa de fim de tarde tentando levar embarcação ao alto-mar.
João Gilberto Noll, um dos mais profícuos escritores contemporâneos, deveria ter-se negado a trabalhar sob encomenda, porque, mesmo depois de iniciada a empreitada, a preguiça parece que lhe tomou o pulso. Canoas e Marolas navega na incerteza da preguiça e na pressa de acabar logo com o sofrimento iniciado com a escrita. É claro que o livro tem muito da excelente prosa poética de Noll, como "o vento, ah, o vento, sempre o vento na mente buliçosa" ou "esse gozo exíguo que levaremos eu sei até o sopro findar". O problema é que a prosa poética e as expressões bem acabadas de Noll são levadas com insegurança por marolas em canoas frágeis que não alcançam terra segura para ancorar.
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